Rádios afetivas

Você é das antigas e se sente conectado quando ouve rádio? Fazendo parte de algo? Às vezes me sinto menos sozinha ouvindo alguma estação de rádio do que minhas playlists favoritas do Spotify ou vídeos no YouTube.

Em 2022 comecei a ter crises de ansiedade eventuais de manhã cedo. Conversando com a minha mãe, ela disse que ouvir música ajudava a dispersar o fluxo de pensamentos, melhor ainda se começar a fazer alguma coisa junto, como tarefas domésticas.

Percebi que tinha vontade de ouvir uma rádio da minha infância, a UCP FM, da universidade católica em Petrópolis.

Então por volta das 6 da manhã, um pouco antes até, naqueles dias, saía da cama e ia pra cozinha, botava a rádio pra tocar online pelo celular e começava a fazer alguma coisa. Era como ter uma companhia enquanto todos ainda dormiam (exceto meus vizinhos idosos que acordam às 5:30 e discutem alto sobre o desempenho do Botafogo, mais acaloradamente em caso de derrota).

Inclusive às 6 da manhã um padre contava uma pequena história, não necessariamente bíblica mas inspiradora e rezava uma Ave-Maria. Então além de ouvir músicas mais ou menos tranquilas, variando entre rock, MPB e pop, ainda tinha um breve momento de inspiração. E como criança católica, por mais que a gnt cresça e faça objeções à Igreja dos homens, um momento de oração religiosa é bem-vindo, principalmente nos momentos difíceis.

Atualmente as minhas favoritas são, além da UCP FM, a JB do Rio, a Aspen, de Buenos Aires e a Light de BH. Tem alguma rádio afetiva a acrescentar na lista?

E assim retomei o hábito de ouvir rádio que tocam músicas leves, não muito enérgicas ou de balada, principalmente quando estou me sentindo sozinha ou querendo companhia durante o trabalho. Fui percebendo que muitos lugares tem essas, vou chamar assim, rádios afetivas. Então cada lugar que vou, pergunto pro motorista do Uber, pro taxista, ou presto atenção nos cafés e restaurantes que rádio está tocando e salvo no aplicativo Radio Box. 

A Máquina do Ódio – ou os bichos escrotos

Patrícia Campos Mello

Ed. Companhia das Letras

2020

294 páginas

A Máquina do Ódio, de Patrícia Campos Mello – analogica.blog

Sabe quando aparecem ratos, baratas ou formigas na sua casa e quando você descobre, depois de tanto procurar, por onde é que eles estão passando? Aquele momento a-há. Foi assim que me senti lendo o livro da jornalista Patrícia Campos Mello sobre os esquemas de produção e difusão de fake news e práticas violentas contra jornalistas na internet. Não só no Brasil, mas em outras partes do mundo, a infestação é um problema real.

Patrícia tem uma escrita muito gostosa e fácil de ler, tornando instigante a leitura de um tema indigesto, principalmente os dois primeiros capítulos, que tratam da manipulação dos últimos eventos eleitorais do Brasil. É estarrecedor entender a simplicidade do mecanismo de comunicação de massa através do whatsapp, seguindo a simples oferta e demanda dos serviços de comunicação virtual oferecidos por empresas privadas que nem sequer precisam estar no Brasil ou conhecer a mensagem. São realmente caminhos simples que basicamente consistem na exposição das pessoas a uma enxurrada de informações, diminuindo o espaço para a reflexão e em tamanho volume que mal deixa espaço para qualquer outra narrativa acontecer. Nos desígnios da nossa vida pública, esse empreendedorismo bem-sucedido dos pacotes de dados significou que nem a legislação, nem as instituições, nem mesmo o debate público conseguiu acompanhar com velocidade suficiente o quanto o fenômeno tecnológico do whatsapp e o compartilhamento de informação de modo maciço influenciou nos processos decisórios das nossas eleições. Entendemos tarde demais.

Outro aspecto importante da leitura foi a narrativa da repórter sobre sua própria experiência como alvo de ataques cibernéticos enfurecidos e injuriosos. Seu ponto de vista ao mesmo tempo de relatora e vítima de ataques virtuais por causa do sucesso de seu trabalho enriqueceu a leitura de um modo que facilita a relação com a gravidade do assunto. É um tanto doloroso compreender que a desqualificação moral da imprensa e a instauração da desconfiança generalizada são tudo o que pequenos grupos de poder precisam para ascender e se blindar de verdades inconvenientes.

Tudo isso que Campos Mello aborda em seu livro compõe um assunto urgente, atual, necessário e que ainda têm desdobramentos a revelar. Agora, já podemos tacar o inseticida no lugar certo.

Interessou? Tem o livro disponível na sua livraria favorita ou, por exemplo, aqui.

Barulho de modem discado

Estou em busca de conexão. Mais tempo pra pensar, palavras escolhidas com mais carinho e atenção, comunicação consistente. Procuro um sentido na experiência da internet e um canal de criatividade e troca onde eu possa ler e escrever com mais calma, absorvendo, curtindo, maturando as ideias.

Acho que a dinâmica de conversação na virtual hoje, principalmente pelo whatsapp é uma enxurrada de palavras, jatos de conversas paralelas, grupos onde muitos falam e poucos de tudo isso dá pra ler de fato. Não que seja uma experiência de todo ruim, claro que não. Como é bom poder falar com uma amiga altas horas da noite, matar saudades em tempo real de quem mora longe, fofocar silenciosamente no trabalho, mandar uma mensagem de amor no meio do dia ou um lembrete pra alguém sem querer importunar com uma ligação. E paquerar também, por quê não? Eu mesma conheci meu namorado no Tinder, a gente passou uma semana escrevendo um monte pelo aplicativo antes de se conhecer.

Mas o que me ocorre é que muitas vezes a internet é demais. Muita informação, solicitação, pedidos de atenção, propaganda, mecanismos feitos pra você nunca querer sair do celular, nunca ficar em silêncio… já reparou como o whatsapp, facebook e afins é pensado pras conversas nunca terminarem? É tique azul, aviso de online, notificação… e aí as conversas vão se perpetuando, cada tempinho que sobra, ou nem sobra, vai pra alimentar as interações (já parou pra pensar no significado desse termo?). O silêncio acaba até se tornando um sintoma de problema se a conversa rarefaz, porque os meios de comunicação virtual não são feitos pra ter pausa. Isso tudo sem falar dos memes, links, videos, status, que vão estimulando essa tal “experiência de uso” meio paranoica.

E aí no meio disso tudo eu percebi que esteva interagindo mais, porém me sentindo mais solitária, mais desnutrida. Sabe quando você encontra seus amigos, conversa, troca idéias, abre o coração, desabafa, ri um bocado e volta revigorada? Então, eu estava sentindo falta disso mesmo achando que estava participando mais da vida das pessoas e foi por isso que resolvi inaugurar esse blog.

Meu desejo com esse projeto é publicar conteúdo com mais intenção de que tenha de fato algo que eu queria compartilhar, enquanto espero também ler com mais presença. No momento venho achando que essa é uma forma de aproveitar o melhor da conexão que a internet possibilita, o melhor da nossa vontade de compartilhar, de interagir, de crescer juntos. Claro que acho que o blog é mais uma via de falar que de ouvir, mas vai que uma coisa escrita aqui, pensada com calma, não vira uma conversa consistente, nutritiva ou ainda que os meus amigos também encontrem suas formas de compartilhar online que não sejam tão rarefeitas quanto a conversa ligeira através dos polegares?