A Máquina do Ódio – ou os bichos escrotos

Patrícia Campos Mello

Ed. Companhia das Letras

2020

294 páginas

A Máquina do Ódio, de Patrícia Campos Mello – analogica.blog

Sabe quando aparecem ratos, baratas ou formigas na sua casa e quando você descobre, depois de tanto procurar, por onde é que eles estão passando? Aquele momento a-há. Foi assim que me senti lendo o livro da jornalista Patrícia Campos Mello sobre os esquemas de produção e difusão de fake news e práticas violentas contra jornalistas na internet. Não só no Brasil, mas em outras partes do mundo, a infestação é um problema real.

Patrícia tem uma escrita muito gostosa e fácil de ler, tornando instigante a leitura de um tema indigesto, principalmente os dois primeiros capítulos, que tratam da manipulação dos últimos eventos eleitorais do Brasil. É estarrecedor entender a simplicidade do mecanismo de comunicação de massa através do whatsapp, seguindo a simples oferta e demanda dos serviços de comunicação virtual oferecidos por empresas privadas que nem sequer precisam estar no Brasil ou conhecer a mensagem. São realmente caminhos simples que basicamente consistem na exposição das pessoas a uma enxurrada de informações, diminuindo o espaço para a reflexão e em tamanho volume que mal deixa espaço para qualquer outra narrativa acontecer. Nos desígnios da nossa vida pública, esse empreendedorismo bem-sucedido dos pacotes de dados significou que nem a legislação, nem as instituições, nem mesmo o debate público conseguiu acompanhar com velocidade suficiente o quanto o fenômeno tecnológico do whatsapp e o compartilhamento de informação de modo maciço influenciou nos processos decisórios das nossas eleições. Entendemos tarde demais.

Outro aspecto importante da leitura foi a narrativa da repórter sobre sua própria experiência como alvo de ataques cibernéticos enfurecidos e injuriosos. Seu ponto de vista ao mesmo tempo de relatora e vítima de ataques virtuais por causa do sucesso de seu trabalho enriqueceu a leitura de um modo que facilita a relação com a gravidade do assunto. É um tanto doloroso compreender que a desqualificação moral da imprensa e a instauração da desconfiança generalizada são tudo o que pequenos grupos de poder precisam para ascender e se blindar de verdades inconvenientes.

Tudo isso que Campos Mello aborda em seu livro compõe um assunto urgente, atual, necessário e que ainda têm desdobramentos a revelar. Agora, já podemos tacar o inseticida no lugar certo.

Interessou? Tem o livro disponível na sua livraria favorita ou, por exemplo, aqui.

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